Cresce o número de casos da "doença do celular" Vida Sim

Cada vez mais tem se tornado comum vermos pessoas portando e dando atenção a 2 ou 3 celulares ao mesmo tempo. Por outro lado, as transformações em nossa sociedade têm exigido que estejamos conectados permanentemente.

Seja conversando, acessando as redes sociais, checando os e-mails, navegando na internet ou até mesmo jogando, as possibilidades de uso têm se multiplicado em curtíssimo espaço de tempo. E com isso, as pessoas passam cada vez mais horas do seu tempo utilizando os dispositivos, não sendo raro muitas delas deixarem os aparelhos ligados 24 horas por dia.

Entretanto, o que veio para ser uma ferramenta facilitadora sobretudo no campo da comunicação, tem se transformado em um grande pesadelo para um crescente número de pessoas, que chega a desenvolver transtornos psicológicos associados ao uso dos smartphones, como é o caso da nomofobia.

É absolutamente normal passar raiva em alguns momentos, como por exemplo com quedas de sinal ou falta de bateria. Mas a nomofobia vai além disso. O transtorno engloba um tipo de dependência que algumas pessoas têm desenvolvido, onde há a extrema necessidade e urgência de estarem conectadas e se comunicando, com os aparelhos na mão durante todo o tempo. O nome deste transtorno veio da junção de palavras em inglês “no” + “mobile” + “fobia”, que significa algo como “fobia de ficar sem conexão móvel“, que vale tanto para internet quanto para dispositivos móveis (celulares ou smartphones).

Uma “doença” moderna

Razões para o problema ter se agravado são principalmente o acelerado desenvolvimento de novas tecnologias e a chegada dos smartphones no mercado. A facilidade de acesso e conexão com a internet também faz crescer o número de pessoas que utilizam as novas tecnologias e, consequentemente, as que sofrem com o transtorno.

Embora haja uma linha de profissionais que se oponham ao tratamento do transtorno como uma doença – alegando que o mal surge como sintoma de outra ou outras doenças, não sendo propriamente a doença, o debate acadêmico acerca do tema não é pequena e há algum tempo já vem sido discutida a inclusão da “nomofobia” no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – o manual utilizado por profissionais da área de saúde mental.

Enquanto a questão não é resolvida, o problema só vem crescendo em todo o mundo. Recente estudo divulgado pelo The Royal Post, na Inglaterra, revelou que 52,5% da população inglesa (58% dos homens e 47% das mulheres) sofrem de nomofobia.

Estudos realizados no mundo todo apontam um crescente número de pessoas que não conseguem ficar longe do celular nem por um instante, caso contrário, sentem uma forte angústia, irritabilidade, desconforto e inquietude, sintomas que ainda podem ser agravados quando o celular fica sem bateria ou sem créditos.

Pessoas que sofrem de nomofobia chegam a se sentir rejeitadas quando ninguém manda mensagem ou telefona, ou até mesmo quando percebem que seus amigos recebem mais ligações do que elas. Além do mais, esse transtorno pode estar relacionado a outros tipos de transtornos, como depressão e ansiedade.


Nomofobia no Brasil

O instituto de pesquisa francês IPSOS divulgou recentemente os resultados de uma pesquisa realizada com brasileiros. Participaram do estudo mil pessoas com idade superior a 16 anos, em 9 regiões metropolitanas e mais de 70 cidades. Os resultados mostraram que 18% dos brasileiros afirmam ser dependentes dos aparelhos.

Para psicólogos especializados na área de Transtornos do Impulso, a nomofobia se trata de um distúrbio de controles, onde o usuário sente uma enorme dificuldade de resistir à tentação de efetivar uma ação, mesmo que essa ação possa prejudicar o próprio usuário ou outras pessoas. Ao executar a ação, imediatamente o usuário sente uma brusca diminuição da tensão emocional e física, seguida de um grande alívio.

O perfil mais frequente entre os dependentes costuma ser de jovens e adultos com mais de 40 anos, que buscam uma válvula de escape para lidar com situações turbulentas. Estes usuários são atraídos pela falsa sensação de liberdade e autonomia proporcionada por estes meios, sem se dar conta que sua vida fica cada vez mais empobrecida e o campo de atuação cada vez mais limitado. Este fator de risco ainda aumenta quando há algum trauma sofrido, como separação conjugal, morte de familiares, entre outras situações.

Os sintomas do transtorno ficam mais visíveis quando a tecnologia vira a única forma de prazer do indivíduo, que passa a gastar cada vez mais tempo com elas, além de perder o interesse por atividades sociais, afetivas e de lazer que gostava de fazer anteriormente.

É comum que portadores do distúrbio apresentem sintomas desagradáveis ao ficar longe do aparelho e, em muitos casos, a abstinência ainda pode desencadear comportamentos agressivos e sintomas semelhantes aos de ataques de pânico.

Na maioria das ocorrências, o dependente pode até reconhecer que não faz uso saudável da tecnologia, mas dificilmente despertará a consciência que sofre de um transtorno e necessita de ajuda. Psicólogos alertam o problema ainda pode camuflar outros distúrbios, como transtorno do déficit de atenção (TDAH), transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e depressão, além de agravar a insegurança dos usuários.


Como é possível evitar o problema?

Claro que não precisamos deixar de usar a tecnologia e nem proibir que nossos filhos usufruam dela. Mas é preciso ter cautela e moderação com o seu uso, principalmente se tratando de crianças e jovens – que são cada vez mais atraídos pelas novas ofertas do mercado.

Se passa a semana toda utilizando o celular, que tal deixá-lo de lado durante o final de semana? Procure sair de casa mais vezes, aproveite o tempo para melhorar o relacionamento com a família e com os amigos, pratique atividades físicas, leia bons livros e procure adotar hábitos de uma vida saudável.


Uma outra abordagem

O filósofo e professor Mário Sérgio Cortella que, dentre diversas atividades, já ocupou a Secretaria da Educação de São Paulo e trabalhou com o renomado pedagogo Paulo Freire, tem uma abordagem um tanto interessante sobre o assunto. Segundo o autor, a causa de problemas como este está associado à forma como a tecnologia é vista por seu utilizador. Durante uma entrevista, Cortella traz a seguinte definição sobre a questão da tecnologia e sua utilização:

Tecnologia é fundamental. Tecnologia é ferramenta. E ferramenta é ferramenta. Eu não tenho uma escada para ficar na escada, mas para ir a algum lugar. Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve, já dizia o gato da Alice no País das Maravilhas.

Mário Sérgio Cortella em Reflexões sobre a educação

Ou seja, segundo o autor, a solução para o problema está em buscar a utilização consciente e racional do recurso tecnológico, usando-o para fins específicos. Dessa forma é possível aproveitar os benefícios e atalhos que a tecnologia traz para a vida moderna, jamais se esquecendo que ela nada mais é do que uma ferramenta em nossas vidas.


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