Agrotóxico mais utilizado no Brasil apresenta fortes evidências de causar câncer Vida Sim

Embora muito curiosa a falta de atenção dada ao assunto pela maioria dos grandes veículos da imprensa brasileira, no dia 20 de Março deste ano, a Organização Mundial da Saúde anunciou o resultado de estudos realizados sobre alguns pesticidas amplamente utilizados na agricultura – assim como em alimentos geneticamente modificados, ou transgênicos. Há ainda substâncias como o malation, que é pulverizado em centros urbanos como forma de combate ao mosquito da dengue e utilizado na composição de produtos de uso doméstico.

A pesquisa(1), conduzida pela Agência Internacional para a Pesquisa em Câncer (IARC) da OMS (Organização Mundial da Saúde), concluiu que o herbicida glifosfato e os inseticidas malation e diazinon – todos liberados para uso no Brasil, apresentam fortes evidências em relação a atuarem como agentes causadores de câncer em seres humanos.

O estudo foi realizado com base na observação e análise de pessoas expostas aos produtos, que vem sendo realizada desde 2001 nos Estados Unidos, no Canadá e na Suécia. Foi constatada a incidência de linfomas do tipo não-Hodgkin nos casos de exposição às 3 substâncias analisadas. No caso do malation ainda foi observada a incidência de câncer de próstata e do diazinon a incidência de câncer de pulmão.

Testes realizados com roedores também comprovaram o desenvolvimento de tumores cancerígenos com a exposição ao malation e ao glifosfato.

Todas as 3 substâncias agiram com propriedades mutagênicas, ou seja, foram acusadas de causar danos e mutações ao DNA e aos cromossomos. Já no caso do malation, houve alterações no sistema endócriono, sistema que influencia diretamente alterações nos ciclos reprodutivos humanos, queda de fertilidade, problemas de ordem comportamental e também imunológica.

O relatório também contempla resultados de análises de mais 2 pesticidas, a parationa-metílica – ou paration, e o tetraclorvinfos. De forma convincente, essas duas substâncias comprovadamente causaram câncer em animais nos testes realizados em laboratório.

A questão no Brasil

Talvez seja muito otimismo imaginar que a publicação desses resultados de alguma forma influenciará mudanças no Brasil de imediato. No ano de 2008 foi solicitado pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal que a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) realizasse a reavaliação toxicológica de 8 substâncias presentes em agrotóxicos utilizados no país, dentre elas o paration e o glifosfato.

O ano de 2014 chegou e os procedimentos ainda não haviam sido realizados. Isso fez com que, em Março, o MPF acionasse a Justiça Federal por meio de uma ação civil pública, exigindo a conclusão da reavaliação em até 180 dias. Além disso, o órgão também solicitou a suspensão imediata dos registros emitidos e de novas concessões de registro de todos os produtos contendo as substâncias que tiveram a reavaliação solicitada, o que em menos de um mês foi negado por um juiz federal.

No fim do ano de 2014, a ANVISA finalmente decidiu pelo banimento da substância parationa-metílica e do forato, mantendo a permissão para as 6 restantes, incluindo o glifosfato.

Vale aqui destacar que desde a década de 80 a parationa-metílica já era tratada com severas restrições, sendo seu uso totalmente proibido na União Européia e nos EUA desde 2003.

Glifosfato: a bola da vez

Com a publicação da pesquisa da IARC(1) – onde o glifosfato passa a ser considerado como uma substância com fortes evidências de atuar como agente causador de câncer em seres humanos, o MPF em Abril deste ano envia nova recomendação à ANVISA, solicitando que que a agência conclua os testes de reavaliação toxicológica em relação à substância – solicitados em 2008, para que seja possível proceder com o processo de irrestrito banimento da substância em território brasileiro.

Espera-se apenas que desta vez a resolução não tarde tantos anos para ser alcançada. O glifosfato é o herbicida mais utilizado nas plantações brasileiras. Pelo fato de sua aplicação ser realizada em diversas culturas, muitos acabam sendo atingidos por mudanças em relação ao uso da substância. Dentre os plantios utilizados, estão:

- milho;
- arroz;
- cacau;
- café;
- cana-de-açúcar;
- coco;
- feijão;
- fumo;
- trigo;
- aveia preta;
- soja;
- ameixa;
- banana;
- maçã;
- mamão;
- nectarina;
- pêra;
- pêssego;
- uva.


Referências:
(1)-http://www.iarc.fr/en/media-centre/iarcnews/pdf/MonographVolume112.pdf
- http://ec.europa.eu/health/scientific_committees/opinions_layman/en/electromagnetic-fields/glossary/ghi/iarc-classification.htm
- http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/4e789280484701079bb2bfbdc15bfe28/G01++Glifosato.pdf?MOD=AJPERES
- http://www.prdf.mpf.mp.br/imprensa/24-03-2014-acoes-do-mpf-questionam-registro-de-nove-agrotoxicos


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